Um padrão de rádio digital para o Brasil

Hoje assisti a algumas palestras do Simpósio de Tecnopolítica na EACH.

Todos assuntos muito interessantes, mas pelo caráter de urgência decidi divulgar um dos tópicos: a adoção de um padrão de rádio digital para o Brasil. O caso é totalmente similar à história do padrão de TV digital.

O padrão defendido pelo palestrante, Rafael Diniz, é o DRM - Digital Radio Mondiale (que nada tem a ver com o Digital Rights Management!!!). Deixo vocês agora com o texto do site do DRM, que explica direito toda a situação.

Leonardo Leite

O que é Rádio Digital

O chamado rádio digital, assim como o rádio analógico, é um sistema de radiodifusão que utiliza o espectro eletromagnético para transmitir sons. No caso do rádio analógico, o sinal de áudio é modulado diretamente em FM ou AM. No digital, o áudio é primeiramente digitalizado e sua sequência binária é modulada por algum padrão de codificação digital para então ser transmitido pelo ar de forma muito semelhante à uma rádio analógica, envolvendo tradicionais elementos como torre e antenas.

Entre as principais vantagens do rádio digital sobre o analógico podemos citar: melhoria na qualidade do áudio, multiprogramação, transmissão de dados (textos, fotos, informações de trânsito, alertas de emergência, etc.), cobertura de uma mesma área com menor potência e a otimização do espectro eletromagnético.

Contexto

O rádio digital no Brasil começou a ser pensado e testado em meados da década de 2000. Em março de 2010, o Ministro das Comunicações Hélio Costa publicou a portaria 290 que institui o SBRD: Sistema Brasileiro de Rádio Digital, dando disposições sobre os pré-requisitos que o sistema deveria atender.

Testes

Atualmente, dois padrões de rádio digital estão sendo considerados para servir como base técnica para o SBRD: O DRM e o HD Radio.

Características dos padrões DRM e HDRadio

O DRM (Digital Radio Mondiale), em português, Rádio Digital Mundial, é um padrão de rádio digital desenvolvido por um consórcio global de nome DRM, com sede na Suíça e representações em vários países.

É um padrão aberto, sendo o único padrão de rádio digital reconhecido pela UIT (União Internacional de Telecomunicações) que pode funcionar em todas as bandas de radiodifusão sonora terrestre: Ondas Médias, Ondas Tropicais, Ondas Curtas e o VHF (faixa das rádios FM).

Apresenta-se como um padrão de última geração, que começou a ser pensado em 1999 e, hoje em dia, está sendo testado em várias partes do mundo, inclusive no Brasil e já em fase de implementação na Rússia e Índia. O DRM foi criado com o objetivo de ser um padrão mundial e aberto, não de um país ou continente específico.

O HD Radio é o padrão utilizado nos Estados Unidos e desenvolvido por uma empresa chamada Ibiquity. Esse padrão não tem modo de operação para transmitir na faixa de Ondas Curtas e tem a característica de possuir segredos industriais em sua norma. Além dos Estados Unidos, apenas o México adotou recentemente este padrão.

Observando a nova constituição global, pensamos ser importante que o Brasil aponte para uma política autônoma, interligada com as necessidades e demandas nacionais e regionais, e que traga benefícios culturais, educacionais, econômicos e geopolíticos além de fortalecer ações de descolonização, deslocando o eixo das decisões tecno-políticas.

No que se segue, citamos os principais pontos a serem observados para essa escolha e os argumentos que tornam o DRM o melhor padrão para o SBRD.

Economia

A indústria nacional já incorporou todos os aspectos tecnológicos da TV Digital. Hoje em dia, empresas brasileiras (como a Linear) vendem mais transmissores do que a japonesa NEC em território brasileiro. Não há razão para que a implantação do SBDR com DRM, por exemplo, não siga o mesmo caminho da TV Digital. Por ser um padrão aberto, o DRM permite que possamos desenvolvê-lo totalmente em território nacional. Além disso, existem implementações da demodulação, decodificação e codificação do sinal DRM em software livre.

Possibilidades que a indústria nacional pode incorporar:

  • Fabricação de chipset para recepção DRM (inclusos AM e FM);
  • Fabricação de receptores móveis, portáteis e automotivos;
  • Integração do receptor em aparelhos celular, tablet e GPS;
  • Fabricação de moduladores, Content Servers e transmissores;
  • Fabricação de equipamentos de análises e medições.

Já na área de serviços, as possibilidades são infinitas, semelhantes às possibilidades apresentadas pela TV Digital. Dentre elas, podemos citar o desenvolvimento de aplicativos e tecnologias em educação, cultura, serviços de interesse público, publicidade e produção de conteúdo em geral, podendo ser desenvolvidos tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada, centros de pesquisa, universidades, e organizações da sociedade civil.

O Ginga, padrão de interatividade da TV Digital brasileira, poderia ser também adotado como o padrão de interatividade para o Rádio Digital necessitando apenas de pequenas adaptações.

Com a adoção do DRM e a participação da indústria nacional neste processo, abrem-se as portas para mercados internacionais, notadamente na América do Sul e demais países que adotarem o padrão DRM, como África e Ásia. Apenas o Brasil já contribuirá com mais de 10 mil emissoras de rádio para digitalização global. Sem dúvida alguma o rádio é o meio de comunicação mais presente no cotidiano da população.

Tecnologia

O DRM usa o estado da arte em transmissão digital, sendo reconhecido pela UIT, fazendo o uso de tecnologias estabelecidas como o codec de áudio AAC - o mesmo já utilizado no padrão de TV digital brasileira. Esse fato permite a interoperabilidade entre os sistemas de tv e rádio digitais.

Proposto como padrão mundial, o DRM é o único padrão de rádio digital que transmite em Ondas Curtas e Ondas Tropicais, característica que possibilita o fornecimento de serviços com boa qualidade para áreas vastas, como faz a Rádio Nacional da Amazônia, com cobertura em todo o norte do país, por exemplo.

O sistema HDRadio, por outro lado, usa um codec de áudio que é “segredo industrial”, propriedade de uma empresa privada, inexistindo norma internacional que o descreve em sua totalidade.

O DRM possibilita a otimização do espectro de forma a permitir que mais emissoras possam transmitir simultaneamente. O DRM, assim como o HDRadio, permite a multiprogramação e a transmissão de dados digitais de qualquer natureza.

Para a faixa de Ondas Médias (AM), o DRM permite sua revitalização através da melhoria da qualidade do áudio e da agregação de serviços. Para faixa do VHF (FM), permite todas as qualidades de um amplo sistema de rádio digital como áudio estéreo, surround 5.1, multiprogramação, já citados anteriormente. Somente o DRM tem incluso em seu sistema a possibilidade de se fazer transmissão de vídeo em baixa resolução.

A faixa dos canais de TV VHF (após o apagão da TV analógica em 2016) também poderá ser utilizada para o rádio digital de forma que novos tipos de radiodifusão possam ter espaço para emergir.

O DRM está homologado pela UIT para ser utilizado como um sistema mundial de rádio digital terrestre para qualquer frequência entre 0 e 174 Mhz. Portanto, o DRM já está pronto e é o único sistema digital permitido para ser utilizado nas possíveis novas faixas de rádio, como a já sugerida faixa estendida do VHF, o "eFM" (76 a 88 Mhz).

Geopolítica

A nova geopolítica global, com importância crescente dos países em desenvolvimento, novos eixos econômicos, vitalidade das expressões culturais e criativas e inevitabilidade das interligações planetárias, exige do Estado brasileiro uma posição de independência e pioneirismo, criando os meios necessários para que se construam as infraestruturas técnica a serem adotadas no sentido de uma contribuição para a construção desta nova geopolítica. A comunicação aparece como eixo central neste movimento.

Assim como aconteceu no processo de adoção do sistema de TV Digital, espera-se que a América do Sul apoie-se no Brasil para suas decisões nacionais. Com isso, espera-se do país responsabilidade politica e coerência com os processos de integração continental.

As recentes “leis de meios” aprovadas por países como Uruguai, Bolívia e Argentina mostram um esforço para uma utilização mais coerente do espectro eletromagnético e uma atenção para as políticas públicas no panorama das comunicações. Indicação esta que pesa na decisão brasileira de adotar um sistema que contemple as complexidades sociais, geográficas e demográficas do Brasil, porém com vistas a uma realidade maior que é a da integração do continente sulamericano.

Atualmente, com o debate em torno do novo marco regulatório das comunicações no Brasil, abre-se espaço para a discussão, por exemplo, da destinação dos canais 2 a 4 da TV analógica (após o apagão analógico em 2016) para a radiodifusão digital, fato que possibilita uma nova utilização pela sociedade do meio rádio. Este debate é de fundamental importância para uma reinvenção geopolítica do rádio e para o estabelecimento de marcos políticos e legais que potencializem seus novos desenvolvimentos, utilizações e economias.

O HDRadio, por sua vez, foi concebido para contemplar uma realidade geográfica e sócio-econômica norte-americana que difere significativamente das necessidades políticas e legais para o rádio na América do Sul.

Cultura e Educação

Com os argumentos apresentados e considerando os extensivos testes com o DRM por parte do Ministério das Comunicações, Inmetro, Anatel, universidades e radiodifusores, acreditamos que este padrão não apresenta nenhuma deficiência com relação ao HDRadio. O DRM não limita as possibilidades de avanços nacionais do Sistema Brasileiro de Rádio Digital e oferece ampla gama de possibilidades para seu desenvolvimento nas várias esferas da sociedade.

Assina este texto a equipe DRM-Brasil - uma organização informal, sem fins lucrativos, para a qual todos os membros trabalham de forma voluntária, sem nenhum vínculo ou soldo proveniente do Consórcio DRM.

http://www.drm-brasil.org /
contato ARROBA drm-brasil.org

 

Obs: o Rafael me deu permissão explícita para por o texto aqui no nosso site, mas nossa licença creative commons não se aplica ao texto.

7 comments

15
jun

É simplesmente inaceitável o Brasil adotar normas e padrões que não sejam internacionais e abertos, isso fere diretamente a autonomia e independências nacionais, coloca em risco toda autonomia do sistema de telecomunicações (no caso) brasileiro, além de aumentar custos para o Brasil (indústria e população) e remeter lucros extratosféricos para uma empresa estrangeira.

Sequer há o que se discutir do ponto de vista de qualidade técnicos e recursos.

15
jun

Esse ponto de vista do Diraol, colega que comentou logo acima é bem pertinente. Além disso, esse padrão HD vai gerar muitos problemas. O que vale mesmo a pena é esse padrão DRM. Padrão aberto e totalmente aprovado pela UTI.
No meio de tudo isso tem um grupo de comunicação totalmente favoravel ao HD Iboc. Isso é lamentável para o Brasil. Até quando vamos pedir benção aos Estados Unidos?  Isso é uma vergonha, como diz o outro.

21
jun

Uma coisa que não se fala é que o custo do licensiamento do codec AAC eh bem maior que o H.264/AVC de vídeo ou qualquer outro codec de áudio.  Pior ainda na questão da Tv-digital brasileira eh que o codec livre Vorbis ja existia e possui desempenho melhor que o AAC, mas não foi escolhido.
O padrão Digital Radio Mondiale pode ser "bom" mas os custos dos codecs AAC velhos não compensam. Em pleno 2012 existe um codec chamado OPUS http://opus-codec.org/comparison/ definido pelo IETF possuindo qualidade superior a qualquer codec de audio ja criado tem custo zero. 
Radio de verdade tem de ter OPUS... 
 
 

22
jun

Interessante esse comentário do Bruno..... depois vou procurar saber um pouco mais. =)

31
jul

Interessante esse conceito de rádio Digital, ainda não o conhecia

27
set

Oi Bruno,
Obviamente conhecemos o OPUS e já fizemos testes usando o CELT (que se fundiu com o Silk para dar início ao OPUS) e ele funciona muito bem. Existe um paper sobre isso:
www.drm-sender.de/celt_in_drm.pdf
O problema de usar o OPUS hoje é que estaríamos criando um DRM incompatível com a norma internacional (e com os receptores que só suportam o AAC) além de que colocar outro codec de audio em um chipset que pudesse ter rádio e tv digital (que já usa o AAC) seria desperdício e encareceria.
Existem implementações em software livre do AAC já (Fraunhofer, audiocoding, ffmpeg, etc), acho que a questão são somente os royalties né? Que tal deixar de se pagar/renegociar os royalties então?
Mesmo do ponto de vista técnico o AAC ainda tem algumas vantagens à baixíssimos bitrates e suporte a multi-canal paramétrico (mas não quero entrar nessa discussão).

27
set

Oi Bruno,
Obviamente conhecemos o OPUS e já fizemos testes usando o CELT (que se fundiu com o Silk para dar início ao OPUS) e ele funciona muito bem. Existe um paper sobre isso:
www.drm-sender.de/celt_in_drm.pdf
O problema de usar o OPUS hoje é que estaríamos criando um DRM incompatível com a norma internacional (e com os receptores que só suportam o AAC) além de que colocar outro codec de audio em um chipset que pudesse ter rádio e tv digital (que já usa o AAC) seria desperdício e encareceria.
Existem implementações em software livre do AAC já (Fraunhofer, audiocoding, ffmpeg, etc), acho que a questão são somente os royalties né? Que tal deixar de se pagar/renegociar os royalties então?
Mesmo do ponto de vista técnico o AAC ainda tem algumas vantagens para música à baixos bitrates (10kbps por exemplo) e suporte a multi-canal paramétrico (mas não quero entrar nessa discussão), e sim, essa comparação do Opus com o AAC que tem no link que você mostrou não está correta, visto que existem implementações em software livre do AAC e ele tem uma faixa de banda espectral e bitrates bem maior que a presente no gráfico.

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